sexta-feira, março 7

O que me assusta é a pressão que nos obriga a ser frios

 Carnaval de 2025. Nunca, jamais, em hipótese alguma o evento popular que acontece anualmente antes da Quaresma me pegou. Mas, desde que levo uma vida junto às minhas meninas, que são entusiastas da festa carnal, tenho nutrido certa simpatia pelo tema. Eis que, neste ano, estava até ansioso para colar no bloquinho tradicional no distrito de Tubarão Geraldo que reúne famílias, pets, amigos e os inevitáveis vampiros que chegam com o cair da note - horário esse que nosso time se retira de campo em busca de descanso.

Há aquele ditado que reza que tudo na vida é incerto, e assim foi com minha expectativa para o sábado. Na sexta-feira, meu sogro, uma pessoa querida e companheira, sofreu um infarto acompanhado de um edema pulmonar e outras complicações advindas da idade, tabaco e destino. Planos abortados, idas ao hospital, companhia e apoio à minha esposa e enteada deram o tom a esse melancólico feriado prolongado. E, sem muito o que fazer, me pus a pensar nas tardes intermináveis. Como deve ser difícil ter um pai ou uma mãe numa situação incerta como essa. Eu, de fora, tendo a ser mais racional. Meu velho sogro está lá, conectado a seis máquinas, respiração comprometida, rins parando de funcionar e todo esse combo de desgraças que se acoplam à uma realidade hospitalar. Pois bem, sendo frio: qual a qualidade de vida que esse senhor voltará a ter caso escape dessa? Colocando na balança, é uma pessoa que construiu uma carreira e legado admiráveis, viajou com muita frequência, sempre prezou pela boa mesa, criou 3 filhos bem sucedidos, e é reconhecido por seus valores e honestidade. Será que o certo - e o merecido -  não seria finalizar por aí? Porque, pela minha lógica pessimista, o que vem daqui pra frente é só decadência e sofrimento. Ok, talvez esteja sendo mais pessimista do que o cenário reserva e, de novo, é uma visão fria e calculista de quem está de fora. Com certeza minha esposa, sua mãe e irmãos nem cogitem esse tipo de pensamento passar pela cabeça. Mas essa frieza que me acometeu me fez pensar que a sociedade não é e nunca será preparada para esse tipo de situação. A idade é cruel para a grande maioria das pessoas e penso que há um limite de tempo para sermos felizes e aproveitarmos a vida. Depois de um certo ponto é só ladeira. Talvez, abreviar nossa existência fosse um caminho a ser considerado.

 Não tenho certeza de nada disso que estou dizendo. Muito menos se eu sustentaria essa visão caso fosse meu pai ou mãe na situação descrita. Mas o que me deixa perplexo é que esse tipo de debate deveria ser mais explorado, mesmo considerado errado por diversas crenças e religiões que ditam as regras na sociedade que vivemos. Regras essas, na maioria das vezes, sustentadas por uma necessidade de ensinar o que seria o certo sob uma égide de medo, acusação e sofrimento.

sexta-feira, maio 17

profecias esquecidas

 De tempos em tempos, me assombra a memória alguma profecia barata que alguém fez sobre o meu futuro em ocasiões passadas. A da vez foi feita pelo ex-namorado da irmã de uma amiga, em uma festa de formatura na então quente e distante Ribeirão Preto. Estávamos nós, convidados, confabulando inebriados pela bebida de qualidade duvidosa e pelo tom festivo da ocasião, quando este rapaz, um reggaeman avesso a pagar suas contas em dia e entusiasta de uma boa confusão dirigiu-se a mim. Detalhe: eu só o conhecia de vista e nunca fiz questão de passar disso, já que sua fama não era das melhores entre a facção que eu convivia. O rapaz em questão travou contato verbal logo dizendo que sempre ouvia falar bem sobre mim. "Todo mundo diz que você é gente boa pra caralho". Confesso que fiquei satisfeito com a constatação, pois sempre fugi das confusões sociais e focado em dar o mínimo de trabalho possível a quem quer que fosse. Ele continuou a conversa com mais alguns elogios baratos que não me lembro e, em tom profético, segurou em meu ombro e disse "o que é seu tá guardado". Aquele clichezão manjado que nunca sei se é uma maldição ou um alento. Enfim. Terminamos aí o breve diálogo, já que a formanda chegou em nossa mesa e voltamos as atenções para ela.

...

Passado algo em torno de duas décadas da ocasião, me pego acordando às 5h40 para preparar o café da manhã para minha companheira e minha enteada e essa lembrança me veio à cabeça, do nada. Daí pensei no quanto a vida tem sido feliz desde que formamos uma pequena família e fomos morar juntos. Confesso que ver minha namorada ali, dormindo ao meu lado e sua filha que agora é minha também, abraçada em axolote de pelúcia no outro quarto, me causou um regozijo. A única coisa que me incomoda, às vezes, é achar que não mereço tanto, síndrome do impostor e afins. Mas, aí me veio à mente a profecia do guerreiro do reggae afastando por ora a culpa católica. Será que era isso que estava guardado pra mim? Seria o regueiro um profeta de Jah Rastafari? Sinceramente, espero que sim, pois, depois de uma vida amorosa pífia, amar e me sentir amado aos cinquenta anos é reconfortante. Me bastaria isso, se viver em sociedade não custasse tão caro. Mas deixo aqui meu abraço fraterno a esse vaticinador que, no chute, cravou algo bom a meu respeito sem nem me conhecer direito. Que algo bom pra você também esteja guardado, guerreiro. E que tenha chegado em tempo.

sexta-feira, abril 12

Aqui jaz o jazz.

 

“Quero fazer uma provocação.”

Eu? Jamais. Por isso a frase está entre aspas. Me refiro a um termo que tem se tornado comum em reuniões com clientes arrombados. Não importa o quanto a sua entrega está completa e seus argumentos embasados, o indivíduo se sente compelido a fazer a tal provocação. Geralmente ela vem fora de contexto, apenas pra causar desconforto. Seria algo cultural da empresa do cliente e ele simplesmente está repetindo os padrões do seu alto escalão? Muitas vezes penso que sim, mas esse tipo prepotente tem se perdido cada vez mais em seu personagem e vem trazendo prejuízos financeiros e emocionais a todos em seu entorno. Pelo simples prazer de discordar. Talvez a lógica do capitalismo esteja aí mesmo: nada deve ser fácil, tudo tem que ter um tanto de sacrifício pra ser validado. Como se estar ali, naquela situação, já não fosse um sacrifício. Pelo menos pra mim. Admiro quem sabe jogar bem esse jogo e, pra minha sorte, trabalho com várias pessoas assim. Se dependesse só de mim, tudo estaria perdido. Sincericídios, falências e ostracismo, tudo embalado num engruvinhado papel de fracasso.

sábado, maio 14

ira! - 1988 - psicoacústica



O Ira!, banda que começou a carreira com dois discos comerciais e bem sucedidos, entrou numas de psicodelia paulistana e lançou o psicoacústica em 1988. Este é com certeza o álbum mais obscuro da banda, com uma proposta musical que a grande maioria do público não entendeu - como os samplers do filme O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, em Rubro Zorro e Pegue essa Arma. Quase nenhuma das músicas tinha pegada pra tocar no rádio e isso era um suicídio comercial naquela época. Mas mesmo assim, pra mim é um dos álbuns mais importantes e bem gravados do capenga rock brasileiro.

Deguste esse petardo.

terça-feira, maio 10

trail of dead - 2002 - source tags & codes



O nome certo da banda é ...And You Will Know Us by the Trail of Dead mas, por motivos óbvios, todo mundo chama só de Trail of Dead. Tive a sorte de vê-los ao vivo numa pacata cidadezinha o interior paulista e fiquei impressionado com a apresentação. Simplesmente incendiários: várias guitarras, várias afinações e canções que passavam do barulhento ao melodioso como mágica. Esse disco em questão foi um dos que mais ouvi na vida e com certeza entra nos meus top alguma coisa.

Deguste esse petardo.

quarta-feira, maio 4

yuck - 2011 - yuck



Achei que tinha descoberto essa banda por acaso e, uma semana depois, já tinha um monte de medalhão falando dela. Tocou no hypado SXSW, evento de onde saem as bandas indies mais superestimadas pelo público baba-ovo e críticos modernos de plantão. Mas tudo isso é bobagem. O que interessa é que Yuck é legal, tem uma pegada anos 90 nada inovadora, mas é honesto. Lembra um pouco Yo La Tengo, Sonic Youth e Dinosaur Jr. Timbres Fender Jaguar e Jazzmaster pra quem curte um estilo mais rústico e enferrujado.

Deguste esse petardo.

domingo, março 21

faith no more - 1992 - angel dust



Um esporro-purulento-paranóico-escroto-sanguinolento, cérebros explodindo multidirecionalmente, picas frustradas se ralando no cimento e sangrando em cima de crianças miseráveis morrendo de fome. Demônios à solta. Adeus fãzinhas púberas, adeus MTV, adeus tudo. Não tem uma porra de um sucesso neste disco. O Faith No More foi longe demais e definiu um estilo. tornou-se referência. É isso.

Deguste esse petardo.

sexta-feira, fevereiro 26

minus the bear - 2007 - planet of ice



Minus the Bear sempre foi e será um dos preferidos da casa. Esses rapazes de Seattle fazem um som que se situa entre o indie e o pop. Todas as músicas são executadas com maestria, timbres lindos de guitarras, tudo bem suave e ameno.

Deguste esse petardo.

terça-feira, fevereiro 16

friends of dean martinez - 2004 - randon harvester


Você já tinha ouvido falar dessa banda? Nem eu. Mas é instrumental e fez parte da Sub Pop. Já são argumentos mais que suficientes pra conhecer essa subestimada banda que faz um som calmo mas com alguns pontos de tensão, certa elegância calculada e que remete a alguns climas cinematográficos retrô, seja lá o que isso quer dizer.

Deguste esse petardo.

sábado, fevereiro 13

mice parade - 2005 - obrigado saudade


Mice Parade é um projeto do talentoso multi instrumentista Adam Pierce. Tocando violão e bateria ao lado de alguns convidados, Pierce consegue elaborar uma obra intimista e instigante, difícil de ser rotulada. Há quem classifique como post rock, mas eu prefiro chamar de música universal. Uma curiosidade: os títulos dos discos são sempre um anagrama do nome Adam Pierce. Na minha opinião uma das melhores coisas da atualidade, pra se ouvir quando o mundo parece um lindo lugar para se viver.

Deguste esse petardo.